15 Novembro 2009

A-m-a-r-é

Imagem: Kenvin Pinardi

Foi na hora mais bela da tarde
Enquanto o mar explodia em fúria
E um quase silêncio
Adoçava o meu cansaço
Enquanto o vento beijava-me a face
Trazendo previsão de calor
Foi assim...
nas profundezas desse sentir azul
Entre um sopro e uma onda quebrando
Sobre a areia há poe-mar
Disse-me...
Que o amor é essa gravidade suave
do meu sol há lhe orbitar
E que a-mar(é) o suspiro das ondas
Que a areia vêm beijar.

(...)
E desde então
Eu passo os dias
a dar notícias do mar.

19 Outubro 2009

Paradoxal.

(Desconheço autor da foto)

Nós saímos para brincar de noite
queríamos segurar aquela mesma lua
que beijou-nos
enquanto dormíamos
e o calor
da nossa falta de ar enquanto corríamos
Amam-me demasiadamente
as coisas breves de profundidade
E me demoro nessas urgências
Que me aproximam de lonjuras
Meu prazer é dor
O que me liberta, me acorrenta
O que sai de mim, o que me resta
Transborda em mim a sua falta.

18 Outubro 2009

Acontece que o mundo é sempre grávido de imenso.

E os homens, moradores de infinitos, não têm olhos a medir.

Seus sonhos vão à frente de seus passos.

Os homens nasceram para desobedecer aos mapas e desinventar bússolas.

Sua vocação é a de desordenar paisagens.

(Mia Couto)

04 Outubro 2009

Eternuridade

Queria dizer do menino que deve não saber que hoje é dia de domingo e faz sol. E que domingos são de sorrisos, de doce, cocada preta e flores de dentro.
Para dentro, o menino é só e silencio. Do jeito de quem segura a dor. De quem cresceu às pressas e já esqueceu da ciranda e do bicho-cola. De quem brinca de futuro sem naves ou foguetes. De quem os olhos não ousam digirir-se para cima, nem para o lado. De vida que já conhece o sabor do sal. Do sal que escorre pelo leito do rosto miúdo.
Agora as sombras e a minha auto-insuficiência. Uma tristeza suave e demorada e eternuridade precipitada. Tanta...
Obrigado
, foi só o que disse. Bem baixinho. A palavra amor é tão pequena e frágil. Para todas as outras não há razão. É só tentativa vã de tirar essa farpa.

27 Setembro 2009

Incandescência

Imagem: Luiz Carlos de Carvalho

E sob a lua
despida...
O amor tecendo
Vontades
Dos versos bordados no lençol
daquela poesia que arde.
E nessa nossa trama
Se você chama...
Eu fogo.

22 Setembro 2009

(In)definição ou, das coisas que eu não sei dizer

Imagem: Elsa Mora

*Pra muita coisa importante falta nome...

É um laço bem feito que aperta a alma. Um querer. Um desejo bom. É gratidão. É sol pedindo licença às nuvens de chumbo. É curativo quando a alma doi.

*Pra muita coisa importante falta nome...

Falta palavra, falta verso. Falta espaço nas letras. Não cabe. A verdade de repente não é mais susto, nem aflige. Foi um minuano generoso que te trouxe feito pólen, feito pó, fecundo. De amor. Por isso não é de paixão que eu amo. Eu amo é de amor.

*Pra muita coisa importante falta nome...

Sobra sentido. Para os meus pés no chão, suas asas. Para seus dedos famintos, minha calmaria. Para minhas palavras nuas, sua poesia. Para sua ventania brusca, minha leveza . Para o meu rascunho a sua trama. Para os meus olhos (d'água), o seu mar inteiro. Para o seu desejo, o meu abraço. Para o amor, esse nosso pacto com o tempo.

*Guimarães Rosa

21 Setembro 2009

De(cor)ando vitrais

Imagem: Ana Castilhos

Meu todo são esses pequenos cacos diários. Nem sempre o que parte se quebra. Há inteireza nos pedaços. Há que se enxergar com cabeça e coração. Olhos só vêem. E há que se permitir dar o segundo passo. Há ainda que se aprender a decorar vitrais: cores, texturas, formas...
Igual como nos tempos de meninice, deitada no chão, pernas para o ar, quando eu passei a enxergar que as coisas, o mundo, é feito de encaixes. Cada peça no seu lugar...um pedaço da árvore, o telhado da casa... Devagar e sem distração. Ao final um sorriso largo colava no meu rosto. Eu aprendia a viver.
Viver é procurar encaixes, alguém disse. Mas para que haja encaixe é preciso que cada parte seja incompleta. Pra fazer sentido. Quando as duas partes se encaixam a felicidade acontece. Sem contudo, deixarem de ser partes, ocos, cacos...Porque quem ama é pobre, está sempre à espera, à procura.
Mas a louça de porcelana - essa não teve jeito. Era o seu presente mais caro. E o meu coração disparou, e você me afogou com suas lágrimas. Eu pensei que naquele instante minha avó morrera para sempre. E me cobri de tristeza. Por você. Porque você não entendeu que cacos viram pó. E que não há forma de ser outro sem antes virar pó.
E eu aprendi a me descuidar cada vez mais. Porque viver é assim. Viver é um descuido prosseguido. (Guimarães Rosa)

Imagem daqui

17 Setembro 2009

Quando o que resta é o amor

Ilustração: Misstigri

Uso roupa de festa. Abrigo um sorriso. Escolho com qual som inauguro os silêncios. Celebro o dia. Esqueço os restos de ontem. Ando sobre a corda bamba. Desiquilibro. Respeito os sinais. Domo a selvageria. Conheço o que os anjos desconhecem. Abomino a auto-piedade. Digo sim aos que repartem sua existência. Não, se meus juízes condenam. Aceito o convite à farra de viver, ainda que os olhos garoem e molhem a tarde de melancolia. Eu já aprendi a sair de cena sem ganhar aplausos. Descobri que há sempre uma pessoa para cada coisa terna. E há dias para se embrulhar pra presente. Não se volta ao que acabou. Há a saudade querendo falar em palavras o que temos medo de pronunciar. E há a distância quando se percebe que se ama melhor ficando invísível. Acordar é dar cor, nesta minha visão. Recordar é recolorir onde faltou você. E há que se cuidar, quando o que resta é o amor.

26 Agosto 2009

SO- L- RISOS

Foto: Bruno Jorge Shinn Andrade

Pra vestir, roupa leve... faz sol lá fora e eu reconheço a primavera se aproximando aqui dentro. Há flores e aromas em mim. Na boca, o mesmo batom cor de lábios. Um corretivo para encobrir os sinais das horas e um toque rubro pra realçar o viço da pele. Nos olhos... apenas o brilho que você colocou neles.

22 Agosto 2009

Des - amor - tecendo

Sabes... saberás sempre
Que meus abraços,
afagos, cansaços
Conhecem a direção
A rota,
O destino...
Sabes...
Que ainda vagante
Só e ausente
Em lugar qualquer
Ou hora do dia
Haverão de se encontrar
Sua mais terna lembrança
Minha mais doce poesia.
E quando minhas palavras
Te abraçarem em silêncio
Saberás então, para sempre
Que o amor que vive em mim
Desconhece o tempo
É infinitivo e infinito...

Foto: Fernando Figueiredo

09 Agosto 2009

Em algum lugar do passado...

Essa foto pai, lembra? Você aproveitou o fotógrafo na festa. Era uma daquelas que aconteciam todo janeiro em honra a São Sebastião, aquele da história do bandido que morreu com uma flecha no peito sem saber quem atirou. Lembra quando decoramos essa música para cantar na missa? Eu achava ela linda. E desse sapato pai, você lembra? Foi você quem comprou ele pra mim. Eu amava esse sapato. Teve aquela vez que o cachorro do nosso vizinho me mordeu, aquele que morava em frente à igreja. Você prometeu matar o canídeo ensandecido... acho que alguem fez isso antes de você.
Eu com a perna inundada de sangue, você me pos dentro do seu fusca branco pra me trazer pro hospital e eu chorava pedindo pra você tirar meu chinelo e me por o sapato vermelho... Essa roupa foi minha mãe quem bordou pra mim. E as cacharréis... eu odiava cacharrel. Lembra do casamento da tia Hilda, vocês me vestiram com uma amarela e ainda me obrigaram a tirar foto com a noiva. Sacanagem hein pai!

E essa sua camisa! Eu lembro até qual era o desenho no bolso dela. Parecia um jogo da velha. Você estava elegante hein pai!
Quantas lembranças me vieram agora. Quantas histórias... Você envelheceu, eu cresci.
Mas essa pai, essa é pra gente nunca esquecer...

02 Agosto 2009

De repente...para sempre

Foto: Carlos Gomes

Um qualquer dia
perdido no tempo.
Qualquer número...
Meia duzia de palavras
Qualquer ideia trocada...
Um por acaso, de repente...
Um instante qualquer...
Um para sempre...


26 Julho 2009

Dos amores mais ternos


Foto: Ana Meireles

É quando a gente sente que metade da gente é o que se traz essencialmente, e a outra metade é o que fazem da gente. São palavras, afagos, carinhos... o que nos eleva e nos faz ir adiante ou o que nos faz parar. Não para estagnar, mas para pensar o quanto nos vale seguir.
São eles... os amigos que emprestam vozes aos nossos silêncios, retiram nossas vidas da singularidade e nos fazem dilatar os significados do mundo.
Alguém, algum dia escreveu que do encontro entre duas pessoas, sempre nasce uma terceira. Essa terceira pessoa é o que nos tornamos, uma espécie de derramamento, transbordamento do que somos.
Amigos são assim. O lado bom da nossa mais perfeita incompletude. A vitalidade e a força da nossa velha fragilidade.
E a gente sabe como reconhecê-los, porque não trazem em seus rótulos prazos de validade. E a gente cuida e preserva com o zelo com que guarda um diamante: extremamente resistente e frágil.
É dessa delicadeza que nascem os amores mais verdadeiros e menos complexos. A poesia não é encharcada de querer. É consciente e terna.
E no meio de tantas gavetas, um compartimento interno, reservado para guardar nossos tesouros mais valiosos. Negociamos espaço. Um pouco da minha dor, um tanto do seu amor, ou vice e versa. Habitamos esse compartimento profundo, próprio das pessoas que não sobrevivem na superficialidade. E guardamos a intensidade do sentimento mais nobre que nos faz mais unos, das rimas mais imperfeitas para a poesia mais bela.


Amigos...Perdoem-me pela ausência. Imensamente agradecida pelo carinho de sempre.

27 Junho 2009

Da janela

Quando ela estava por perto era como se o mundo fosse melhor. Ele de fato, não sabia se era bom, sabia apenas que aquele par de olhos tão azuis e as costumeiras frases de duplo sentido o faziam rir e a pensar que aquilo fosse felicidade.
Ele sentou sobre o banco empoeirado da praça. Pegou-a pelas mãos e os olhos azuis pareciam desejar dizer coisas que a boca não mais dava conta. Lembrou do último encontro e da covardia diante de seus sentimentos. Eu preciso! Pensou. E antes que ela perguntasse alguma coisa...Perdão. Não devia. Não devia? Preciso ir. Espera! Eu já sei. Sabe? Sim. E beijou-o demoradamente.
Da janela, os cotovelos apoiados no parapeito, ele a viu sumir por entre as árvores da rua. Olhou para o recorte do jornal já amassado em suas mãos, sorriu e aumentou em mais um os beijos de sua coleção.

13 Junho 2009

Saudade

Trocando em miúdos
Se quer saber
Foi qualquer coisa assim
A brisa revelou teu cheiro
Vendaval,
Chuva em mim
Ah saudade!
Que tormento
Pros meus dias
só o lamento...
Mas desisto, vou-me embora
Você fica sem saber
Porque saudade
É um sentir tão grande
Que trocando em miúdos
Não sei dizer.


Foto: R. Gonçalves